quarta-feira, outubro 25, 2006

Carta ao Sr. Buk.

Dourados, 26 de Outubro de 2006.

Ilustríssimo Sr. Bukówski, há tempos que venho pensando em escrever-lhe uma carta, mesmo não sabendo muito bem o que dizer, ou do que tratar.

Gostaria apenas, não unicamente, de contar o quão escroto meus dias têm sido. Embalados pelo senhor e por seus escritos, envolvi-me em uma aventura vertiginosa através dos altos e baixos do labirinto espiritual do qual o senhor nunca tratou. Há certos indivíduos que não me compreendem em absoluto quando falo de deus e dessas coisas mais. Eu gostaria de saber do senhor, assim, decisivamente: o que o senhor pensa disso tudo?

Isso sem falar na odisséia que empreendi há meses atrás em busca de qualquer coisa que não fosse paz. Foi muito culpa sua também, hoje sou levemente desrespeitado porque não trouxe exatamente os títulos que os Doidos Varridos esperavam de mim. E eu, tolo, ainda fui cair na besteira de, dia desses, dizer vaidoso a um deles: “De Fulham Broadway a Forest Gate, conheço todos os puteiros, bodegas, botecos, e biroscas contraventoras que comercializam álcool depois das onze e meia, sem falar de outras cidades”. “Áh, e eu que achava que você traria títulos!”, disse ele.

Sinceramente, eu acho que o senhor poderia ter escrito algo um pouco menos consubstancial, e que englobasse mais esferas do ‘fracassado saber humano’, como considero a sua opinião segundo inferências que faço do senhor.

Apesar de tudo, e das críticas que têm se levantado contra mim por outros, e por mim mesmo, devo admitir que sou um dos poucos que viveu o seu personagem. Talvez não com a clareza necessária, com alguns remendos faltantes; deturpado, mas vivi. Talvez seja esse o termo. Um vividor livremente embasado. Um Zé levemente inspirado. Inspirado? Putz, que droga, eu particularmente acho essa palavra um pouco bréga, mas tudo bem, já foi.

O que importa é que admiro muito a sua escrotisse desinteressada e acho que se o mundo todo fosse escrotamente indiferente, as coisas poderiam ser um pouco melhores. Se o senhor fosse candidato à presidência, eu votaria; há um barbudo que se parece um pouco, mas certamente não é o mesmo bom e velho Buk - perdoe a minha cumplicidade artificial.

Bom, Sr. Buk, vou terminando por aqui porque amanhã os cristãos desgraçados, que não vão receber a bênção nos domingos, estão fodidos, e eu sou um deles. Mas gostaria de deixar claro os meus honestos agradecimentos a todos os (des) serviços que o senhor prestou à minha influenciação babaca e espúria, e que o senhor tenha uma longa vida aí junto com o Baco, o Diabão, e toda essa turma da pesada que agita a vida aí nas profundezas da Casa do Caralho.

Ah, olha só, Sr. Buk, eu esqueci de perguntar: como funciona essa história de morrer com complicações de alcoolismo? Eles lhe dão rins, fígado, estômago, coração, ou o que precisar de novo? Como que é? Porque ir pro inferno e não poder beber deve ser cabrêro hein. Sério mesmo, me conta que eu preciso saber, afinal ainda tenho tempo de me preparar.

Hehe, no mais é isso, velho Buk, um grande abraço de um de seus maiores puxa-sacos aqui da vida. Cuide-se, hem bicho, não dá mole pros usurpadores, nem pros agiotas, e evite passar pelo círculo dos padres pederastas; putz, aquela galera é fóda. Foi um prazer tê-lo conhecido.

Cordialmente.

Tiago Muzulon.

2 Comments:

Anonymous Gabriel said...

Somente com algum tarja preta, pra dar jeito.

11:44 PM  
Anonymous marconi leal said...

Do cacete, Tiago. Definitivamente, do cacete!

2:04 PM  

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