sexta-feira, setembro 22, 2006

Dra. Suzana.

Enquanto eu caminhava pela rua cheia de pedrinhas para serem chutadas, os cães me olhavam encabulados. Eu parecia ser uma espécie de demônio para eles. Estacionei a caranga vinho em um bar e disse ao homem do balcão:

- Teobaldo, uma dose da Minha Deusa e a conta, por favor.
- É pra já gurizinho.

Teobaldo sempre foi um dos meus amigos, um homem eficiente e compreensivo.

- Qual é a boa da noite?
- A busca, Teobaldo, a eterna busca da boa da noite.
- E aquela piranha que veio com aqui com você nas últimas três vezes?
- Como você mesmo disse, piranhou. Era uma piranha.
- De fato, você sempre pagava a conta e ela pedia as doses mais caras.
- Pois é, além de tudo me deixou falido. Vaca.
- Vacas mesmo. Vai guri, toma essa outra aqui que é de carvalho, recomendação minha, pela casa.
- Brigado Teobaldo, poxa, você é um bom sujeito.

Saí com o coração nos punhos e o estômago palpitando na garganta. Sentia todas as mínimas nervuras das entranhas e aquilo me era enormemente lindo. Funcionei a caranga vinho, abri o vidro e senti a fingidamente acolhedora brisa do campo, senti-me forte, vivo, inspirado, como me sinto todas as noite em vão. É primavera, mas não faz tanta diferença. As flores estão vibrantes e me sinto na obrigação de também estar, sou ou quero ser uma delas. Mas o caule apodresce, o suco azeda, a seiva embrutesce e a essência peresce. Tive dois invernos, duas primaveras e dois verões nesse ano. Um ano atípico, com apenas um outono. Talvez este tenha sido o grande erro, viver apenas um outono em um ano tão opulento, quando todas as formas se duplicaram, a vida se coloriu em trinta e duas vezes. Já não é mais a minha cidade que se transforma quatro vezes ao ano. É um lugar onde as voltas do mundo simplesmente não fazem a menor importância.

Estava em frente à casa de Suzana e quis telefoná-la para dizer que estava lá. O desejo do joguete me dominou. Disse que estava longe. Suzana saiu de pijamas e viu a caranga vinho. Entrou só para conversar comigo; tentar me convencer de que eu era louco, como fez por muito tempo após as sessões de sexo que empreendíamos em seu consultório. Seus pais viam televisão e tomavam vinho. Ela não mais sairia. Funcionei a fiel caranga bordô e a levei embora. Suzana tinha medo. Eu não. A velhice antecipada me dava aquela sensação dos aventureiros, ou presidiários, coisa de quem não tem nada a perder. Suzana implorava para que eu voltasse. Implorei-lhe um último beijo. Parei no posto central e peguei duas cervejas. Suzana não quis. Prometi-lhe que a levaria embora se tomasse. Fomos à rua do cemitério, e prometi-lhe que a levaria para casa se trepássemos sobre um túmulo. Suzana então chorava, tinha medo de mim. Eu era um monstro. Pedia a ela calma.

- Não Suzana, não é assim. Eu só quero amá-la, fazer carinho em você.
- Me leve para casa, por favor.

Os lábios pequenos, gordinhos e cheios de Suzana me convenceram, sem mais veneno, sem mais perfídia. Pedi a ela para que nunca mais me enganasse, ela jurou. Deixei-a de volta aos pais que nada perceberam entretidos com Mazzaroppi no DVD da família, e vinho. Acabei me arrependendo de não tê-la levado ao motel, a qualquer lugar. Ela tinha que ser minha sobre um túmulo, e depois beberíamos vinho e ela adoraria. Eu deveria ter insistido, somente, para o próprio bem dela.

Mais tarde eu revolveria na cama como se tivesse ingerido todos os meus desafetos. E os desgraçados planejavam as mais ousadas revoluções dentro do pobre estômago. L’alcool, eu já não posso consigo. Imagens do dia que conheci Suzana me assaltavam. Estávamos no sinaleiro. Ela virou o rosto exatamente na hora que o vermelho tinha se fechado e eu freava o carro com raiva. Quando o carro parou totalmente, olhei de novo. E ela me sorria de dentro dos óculos escuros. O vidro sem insulfilme se abriu vagarosamente e um cartão me foi oferecido. Estudei os caracteres e eles simplesmente não me faziam sentido, eram como um amontoado de letras (in)dispostas anarquicamente sobre um papel retangular e rígido. Em milésimos, o carro dela sumia no horizonte das ruas e buzinas mais palavrões ultrajavam meus ouvidos. Perdi mais um lance do sinal. Motoristas enlouqueciam, e eu vivia a plenitude do momento. No terceiro lance do sinal, avancei, parei em uma choperia, pedi uma com o copo sujo e resgatei o cartão para tentar decifrá-lo.

Disquei o número.

- Boa tarde, consultório da Dra. Suzana.
- Éh, hum, consultório de quê aí?
- A Dra. Suzana é psicanalista, em que posso ajudar?
- Quero marcar uma consulta.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

reconheço esse negócio de pedir uma e a conta de algum lugar, rá!

8:31 AM  

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