sábado, julho 22, 2006

O vazio do abandono.

Há uma atribuição de valor demasiado a certas coisas, o que acaba subjugando sujeitos de isopor. Tudo o que torna alguém dependente não é merecedor de ser superestimado. O sujeito precisa viver sozinho, ser auto-suficiente, depender de ninguém senão das próprias vontades e desejos.

Claro que há uma necessidade óbvia de socialização. Mas isso deve ser feito dentro de limites que não permitam a violação de sua individualidade, e com cinismo, se em ambientes estranhos e possivelmente inóspitos.

O mundo exige pessoas cínicas. Portanto, seja cínico e faça o próximo feliz.

O vazio deixado por partidas é imenso e dolorido. Nós deixamos um enorme vácuo em minha bisavó quando partimos. Antes disso, meus amigos me largaram em uma vala etílica. E agora, os meus meninos me deixam em parecida situação. Só e esfaqueado na rodoviária de rondonópolis. Eles foram ao norte, e eu ao sul.

Tivemos dias plenos imersos na celebração e sublimação da entidade chamada Nós mesmos. Somos deuses decaídos do panteão, e nunca estive tão certo disso. Somos celerados virulentos cuspidores de fantasias de vidro retocadas de areia. Elevamos o mundo de seus patamares básicos e o fazemos sublime. Sugamo-nos repondo o vácuo deixado constantemente. Estou por isso então desolado; menor que o mundo, abocanhado pela miséria e agasalhado de prostração. Sou um universo engolido pelo vazio que entrevejo com dificuldade através de uma luneta desfocada. Eles partem me deixando esparramado pelo chão. É a volta absoluta do Eu sozinho.

“A páscoa chegou como uma lebre gelada”, disse-me Henry Miller enquanto eu me embriagava esperando o ônibus. Tive ânsia de vômito, vontade de xingá-lo. Que bosta, que grande e fedorenta bosta, Sr. Miller.

Enchemos a cara na rodoviária. A moça da conveniência perguntou aos meus irmãos: “Aonde vão?”, “A Rondônia”. “Putz, então têm de beber mesmo!”. Depois que eles se foram e deixaram de ser meus garçons e credores, tive de ir buscar sozinho as inúmeras latas. Após a terceira, a moça repetiu sua ousadia: “Êita, vai viajar bêm hein!”; “Pois é”, respondi encabulado.

Depois quis saber seu nome e ela em reposta me quis saber tudo. Passamos o tempo com tagarelices e eu gastei todo o dinheiro que tinha bebendo com ela atrás do balcão da lojinha de conveniência. Quando o ônibus chegou, eu já estava bem. Há muitas delícias em trânsito pela rodoviária de rondonópolis. Na manhã seguinte eu chegaria a cidade-azul-pé-no-saco de ressaca e sem um puto furado.

Sonhei com a Andrea no ônibus ouvindo Mamus. Sonhei que a encontrava a meia-idade e dizia: “It’s incredible how hard and strong we grow along the years. There have been so many delusions in one’s life that everything is bound to be doubted. I’m sorry, but I can’t believe anything any longer but sex, perversion, plain delusion to real or pseudo-love and self-destruction. Each day we grow fatter, bigger, harder like a shell, dryer. We end up becoming shit, and that’s the only prominent truth, my apologies for the rudeness and cruelty on exposing facts and opinion, but that’s all I’ve got to say afterwards.

One of the things is: I still remember that very evening when I left Gare du Nord after three memorable days alone, enclosed within you. We were as plain as never. One of the most beautiful things I’ve ever seen. And then you wept tears on my silly and pretentiously indifferent shoulder. Do you remember that? Well, I expect so, for many things have become vague to me except that. You wept, I cracked, the damned eurostar departed and I was left alone in a train full of nothingness to fucking Waterloo. I remember I rang my mother after the canal and reported every single detail, while I shattered myself against myself. Plainness is to be thrown away, torn apart, executed. Nothing is as plain as we were in that very afternoon when we shagged madly five hours or so till my mobile clanged violently through the enduring silence. It warned me that I should finally leave. And then again so I did broken-hearted, and I seated on a bench cross-legged opposite to you, for a short while, and said, before the final curtain, Have we still got much silence to talk? You didn’t answer, and I opened my volume full of crap by Fante. Now that you know my version of it, that’s your turn”. E então eu fui despertado por uma parada de dez minutos e não ouvi o que ela tinha a me dizer.

Eu queria comer a menina de unhas escarlates que subiu ao ônibus comigo. Eu queria muito, mas uma velha gorda e feia se sentava ao lado. Tive de ir ao fundo. É incrível como às vezes as coisas funcionam, e mais incrível ainda como na maioria esmagadora das vezes elas não funcionam.

Finalmente eu vou ficar sozinho. Mergulhado em minha própria bosta. Um inferno chamado cidade-azul-pé-no-saco que terá de ser reinventado por medidas de sobrevivência da espécie. Eu preciso me propagar, me perpetuar, extender minha sombra diáfana pelos campos elísios inexistentes. Eu preciso de alguém com um encaixe perfeito.
Exegese, exegese, exegese, exagero, exegese, exegero. Frio como uma lebre na cama, putz, Gare du Nord, exegese, lavação de mim mesmo. Álcool e amor.

3 Comments:

Blogger Guilherme said...

Sua conclusão, meu caro irmão, é a mais sensata ante tanta insensatez pedante que há nesses becos agitados (mundo afora). Alcool e Amor é tão sublime quanto a vida e a morte.

Sabe cara? O vazio todos nós sentimos, daí, o que fazer? Novamente nos disfarçar junto com o resto!

7:28 AM  
Anonymous Anônimo said...

pedro acosta diz "uau". e ele odeia a palavra "amor" - totalmente lavada de qualquer sentido ao ponto de lhe causar náusea.

1:34 AM  
Anonymous Emi said...

adorei
nao entendi tudo, mas senti o calor da rodoviária e a vontade de vômito.
I often feel like I couldn´t move in any way and the text reminded my of those situaions, I hope you knw what I mean.
comecei a escutar leonard cohen.

1:29 PM  

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