quarta-feira, janeiro 31, 2007

Uma História (Parte quatro).

Chegamos a Canberra num belo dia de fim de inverno. Em poucos dias veríamos o despertar da primavera e eu estava exultante com esta perspectiva. Ashley me apresentou ao pai, secretário do governo, como noivo. Eu soube conquistar o sogro e a sogra. Após a primeira semana, empenharam-se em conseguir-me emprego num hospital da cidade. Ashley arrumou um apartamento a duas quadras do hospital onde comecei como clínico geral atendendo seis horas por dia. Ela era somente uma estudante integral de direito. Tínhamos as noites e as taças de vinho australiano somente para nós. Todas as manhãs eu acordava, ia até o café da esquina e comia rosquinhas doces, pão com manteiga e tomava uma xícara de café preto forte. Depois voltava ao apartamento levando o que minha esposa havia me pedido. Ela era bastante preguiçosa e só se levantava às oito. O gosto de ver a cara das pessoas, os dias, o relógio a me despertar, logo começou a me causar náuseas. De repente, eu vi um mês passar como se fosse uma semana, três dias como se fossem oito horas. Tudo se confundia em minha cabeça e a noção de tempo se distorcia. Passei a ser relapso comigo mesmo, com os pacientes e com todos. Um dia eu voltava do hospital e avistei um orelhão do outro lado da rua, pensei que deveria telefonar a mamãe. Quando fui atravessar a avenida, avidamente, um carro quase me atropelou. O homem encostou, desceu e gritou-me se eu era um suicida maluco. Respondi com a cabeça que não e lhe disse que queria apenas telefonar a minha mãe, com quem eu não falava havia muitos meses. Então ele me chamou pro canto e indagou baixo ao meu ouvido se eu não gostaria de tomar uma cerveja com ele. Topei na hora, afinal eu não tinha amigos. O homem contou-me que era guia turístico e que levava as pessoas por passeios pelo interior do país para ver os cangurus, crocodilos e essas coisas. Achei-o parecido com o Crocodilo Dundee, até uma faca dentada ele tinha. Sua história era bastante intrigante. Tinha se casado com uma nepalesa com quem teve seis filhos. Ela foi sua assistente de passeio até escorregar do barranco e ser deglutida pelo crocodilo. Dois de seus filhos mais tarde teriam a mesma sorte. Ele se casaria novamente com uma australiana urbana que o expulsaria de casa após quatro meses de convivência só porque ela não podia suportar a mania dele de limpar os dentes com o facão à Crocodilo Dundee após as refeições. No meio da história, descobri que ele tinha oito ornitorrincos de estimação dos quais não se separava sob hipótese nenhuma, e presumi que este teria sido o real motivo da separação. Terminamos nossa cervejinha por volta das três e meia da manhã com a garçonete nos expulsando e um safári australiano agendado e confirmado para o próximo mês, por oferecimento dele, afinal, já éramos grandes amigos. Levou-me para casa e teve de me ajudar a subir as escadas. Ashley estava a minha espera. Conta ele, que minha mulher lhe fora muito amistosa dizendo gentilezas de agradecimento. No entanto, lembro-me de acordar às onze horas da manhã do dia seguinte com curativos por todo o rosto e a cabeça sendo chutada num tambor de óleo diesel. Até hoje penso que houve uma conspiração entre Ashley e o Crocodilo Dundee. Devem ter me surrado, feito amor selvagem até o dia amanhecer, e combinado de nunca me contar de quem eu realmente apanhara. Nos outros dias, o simples pensamento de andar pelas mesmas ruas, ver o mesmo babaca do café com os gracejos matinais imbecis, ir ao hospital atender àquelas pessoas com dificuldades de se socializar e que somatizam transformando a coisa em úlceras gástricas, quedas incuráveis de cabelo, caspas, feridas bucais e amidalites infinitas, causava-me um enjôo terrível. Faltei a semana toda ao trabalho e prometi a Ashley que voltaria somente depois do safári com o Crocodilo Dundee. Aí sim a vida foi boa. Eu só assistia à televisão, apostava nos cavalos pelo telefone e comia salgadinhos de requeijão com cerveja. Num desses dias de ócio profundo, vi no noticiário que tinham descoberto uma fraude de bilhões na previdência brasileira, e que era o maior desvio de verbas públicas já ocorrido no mundo. Pensei, puxa vida, já faz quase um ano que não falo com Mamãe. E disquei a ela imediatamente. Conversamos as mais doces besteiras por quase cinco horas e finalmente entendi o quanto eu amava aquela velha pilantra. Disse-lhe que estava bem. Com dinheiro, uma mulher, um apartamento e uma salamandra amarela. E ela me contou que havia se casado com um michê de vinte anos. Achei ótimo. Sabe, coisas como esta são boas para os dois lados. O menino teria a vida confortável e prazerosa que nunca teve e em troca Mamãe viveria uma terceira idade de sexo caudaloso. Enfim o dia do safári chegou e fomos nos encontrar num restaurante na saída da cidade. O Dundee tinha uma camionete poderosa e deixamos nosso carrinho no estacionamento. Logo ele me perguntou se eu o aceitava dormindo na mesma barraca. Disse que sim, por que não, pensei. Papo foi, papo veio, e novamente Dundee tocou no assunto dizendo que não estava seguro do meu pleno entendimento sobre a questão. Ele não queria só dormir na barraca conosco, mas também dormir comigo e com ela. Bem, disse eu, pode comê-la se quiser, Sr. Dundee, mas deixe-me fora disso. Ele retrucou alegando que ainda não tinha formulado um bom jeito de me convencer, mas que o faria em breve e me persuadiria. E eu respondi, contanto que não me espanquem novamente, topo tudo. Meu interesse é ver os cangurus, as hienas, os crocodilos e os ornitorrincos selvagens.
(continua).

4 Comments:

Anonymous clarice said...

ok. agora eu estou realemnte ansiosa.

11:06 PM  
Anonymous alvarêz dewïzqe said...

tô com uma novelinha pronta, que em breve estarei publicando no meu. mas não como essa aqui... é uma novelinha barata, "pulp" mesmo.

7:47 AM  
Anonymous Valéria (val.floripa@gmail.com) said...

Tenho acompanhado quietinha teu blog, tuas histórias e tua maneira de ver e lidar com os acontecimentos da vida. Acho que me inspirei em alguns momentos, me revoltei em outros, mas a maior parte deles mantive minha vontade diária e curiosa em ler tuas anotações, desde o Diário de Viagem até a volta ao paraíso verde e amarelo. Agora acho que consigo reconhecer-me em algumas partes, pois também vivi esse retorno. Estarei por aqui... abraços.

10:10 AM  
Blogger Antonio Diamantino Neto said...

Muito de fuder my friend. Tô rindo até agora. Gostei da forma; períodos curtos like Hank Chinaski. Gostei deveras. Qual será o título? A volta ao mundo em oitenta vulvas? Texto simples e sacana sem deixar de ser literário.Um abraço!

5:04 PM  

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