sábado, janeiro 20, 2007

O Puro do Cordialismo.

Eu queria saber falar de coisas que nunca fiz. Uma viagem com a menina bonita que se senta ao lado e minha timidez não permite dirigir-lhe a palavra. Alguns dias intocados no alto do morro sentindo apenas a brisa fria da altura com o sabor ácido do vinho tinto seco. Queria poder tricotar histórias como os pescadores tricotam suas redes todos os dias para enfrentar a labuta contra o peixe. Sopraria as velas de cem anos daqueles monges, meus amigos, que ficam aqui santificados dentro de mim. E sim, eles têm muito e todo valor. Eu não, penso que não tenho o valor deles, mas desejo tê-lo. Queria saber das núpcias do califa com suas quarenta e nove mulheres; perguntar-lhe-ia como as coisas se deram, como ele conquistou e gerencia todas em sua vida multiplicada geometricamente. Eu diria que as estrelas são alcaparras arrotadas por algum bêbado moribundo num dia de luxúria único que tivera com o Duque da Morávia na época dos grandes salões. Os setores do meu cérebro me informariam instantaneamente quaisquer alterações psíquicas oriundas de substâncias degenerativas. Para mim, o tempo rasga, apodrece, decepa a carne e acumula tentativas de se fazer alguma coisa. Os segundos são tão perversos quanto os sedativos falsos que tomamos antes de sermos submetidos às cirurgias. Prefiro o amortecedor vivo, o corpo isolado, quente, lacrado em instantes plenos de calor. Os toques, esses me impressionam, me imprimem qualidade, certificados de garantia e conduta. São eles que medem o poder e o efeito da dor. A destruição causada nem sempre transparece no primeiro beijo pós-coito, mas no toque de despedida. As mãos balançam ou tremem, apertam firmes ou buscam o inatingível. Tenho tentado gastar esses últimos instantes sobre pontes que espaçam o tempo. As curvas que me vêm à memória são inteiramente nítidas. Posso senti-las na ponta das minhas gravuras digitais. Padeço porque mereço sentir a dor do esquecimento. Alguém que buscava somente um nada tão vazio quanto quimérico, jamais poderia imaginar atingir um nada que se eleva ao nível mínimo existente. Sou doente por aqueles dentes alvos felizes e satisfeitos por se me mostrarem. Mas, mesmo assim, continuo querendo a pompa da frivolidade, os dias cheios de paspalhice ao lado dos meus deuses d’antes e d’agora. Sinto tanto a sua falta e do cheiro dos dias que vem carregado em sua companhia. São aqueles gritos sussurrados à beira da cama da madrugada que mais gosto, e mais sinto falta. Morro por saber que suas frases curtas e significantes estão pertencendo a outro alguém. Não que elas jamais tivessem pertencido a alguém, nem mesmo a mim, mas estou certo de que os outros se sentem no direito de possuí-las. Cadê aquele vento divisando o seu cabelo no mundo subalterno aos nossos desejos e caprichos? Meu bem, pode vir sabendo que no nosso mundo, mando Eu.

1 Comments:

Anonymous fochesatto said...

é impossível não querer mais, mais, e mais... um pouco.

12:23 PM  

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